No discurso para bispos do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam),
no Centro de Estudos do Sumaré, o Papa Francisco criticou o que chamou
de "ideologização" da mensagem evangélica. Isto é,
. Isso, que ele
chamou de
O
Papa também falou que a posição do missionário não deve ser de centro,
mas sim de periferias e que os bispos, portanto, deve ser pastores,
"próximos das pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão: pacientes e
misecordiosos".
- Homens que amem a pobreza, quer a pobreza
interior como verdades diante do Senhor, quer a pobreza exterior, como
simplicidade e austeridade de vida. Homens que não tenham "psicologia de
príncipes". Homens que não sejam ambiciosos e que sejam esposos de uma
Igreja sem viver na expectativa de outra.
Neste momento, o Papa
Francisco deixou o discurso de lado e brincou que os pastores têm que
lembrar que são casados com a Igreja e que não podem ser polígamos. Francisco
também fez menção ao diálogo com o mundo atual, pois as alegrias,
tristezas e angústias dos homens do nosso tempo são as dos discípulos de
Cristo:
- A resposta às questões existenciais do homem de hoje,
especialmente das novas gerações, atendendo à sua linguagem, entranha
uma mudança fecunda que devemos realizar com a ajuda do Evangelho, do
Magistério e da Doutrina Social da Igreja. Os cenários e areópagos são
os mais variados. Por exemplo, em uma mesma cidade, existem vários
imaginários coletivos que configuram “diferentes cidades”. Se
continuarmos apenas com os parâmetros da “cultura de sempre”,
fundamentalmente uma cultura de base rural, o resultado acabará anulando
a força do Espírito Santo.
Interrogações necessárias
O
Pontífice disse que é necessário que, como pastores, os bispos se
interroguem sobre o andamento das Igrejas a quem presidem. E enumerou
perguntas a serem feitas. Entre elas:
- Procuramos que o nosso trabalho e o de nossos presbíteros seja mais pastoral que administrativo? - perguntou.
Ele também indagou:
-
Temos como critério habitual o discernimento pastoral, servindo-nos dos
Conselhos Diocesanos? Tanto estes como os conselhos paroquiais de
pastoral e de assuntos econômicos são espaços reais para a participação
laical na consulta, organização e planejamento pastoral? O bom
funcionamento dos Conselhos é determinante. Acho que estamos muito
atrasados nisso.
Propostas ideológicas
O Papa listou propostas ideológicas que "aparecem" na América Latina e no Caribe. A primeira da lista foi:
-
O reducionismo socializante, que é a ideologização mais fácil de
descobrir. Em alguns momentos, foi muito forte. Trata-se de uma
pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo com as
ciências sociais. Engloba os campos mais variados, desde o liberalismo
de mercado até a categorização marxista - disse o Papa.
Outra
tentação, disse, é a "ideologização psicológica", que, segundo ele, é
frequente em cursos de espiritualidade, retiros espirituais e outros do
gênero. Ou seja, uma interpretação "elitista, que, em última análise,
reduz o encontro com Jesus Cristo e seu sucessivo desenvolvimento a uma
dinâmica de autoconhecimento".
Tem ainda, continua o Papa, a "proposta gnóstica". Isto é:
- Grupos de elites com uma proposta de espiritualidade superior, bastante descarnada.
Confira abaixo a íntegra do discurso do Papa:
“Agradeço
ao Senhor por esta oportunidade de poder falar com vocês, Irmãos Bispos
responsáveis do Celam no quadriênio 2011-2015. Há 57 anos que o Celam
serve as 22 Conferências Episcopais da América Latina e do Caribe,
colaborando solidária e subsidiariamente para promover, incentivar e
dinamizar a colegialidade episcopal e a comunhão entre as Igrejas da
Região e seus Pastores. Como vocês, também eu sou testemunha do forte
impulso do Espírito na V Conferência Geral do Episcopado da América
Latina e do Caribe, em Aparecida no mês de maio de 2007, que continua
animando os trabalhos do Celam para a anelada renovação das Igrejas
particulares. Em boa parte delas, essa renovação já está em andamento.
Gostaria de centrar esta conversação no patrimônio herdado daquele
encontro fraterno e que todos batizamos como Missão Continental.
Características peculiares de Aparecida
Existem
quatro características típicas da referida V Conferência. Constituem
como que quatro colunas do desenvolvimento de Aparecida que lhe dão a
sua originalidade.
1) Início sem documento
Medelín,
Puebla e Santo Domingo começaram os seus trabalhos com um caminho
preparatório que culminou em uma espécie de Instrumentum laboris, com
base no qual se desenrolou a discussão, a reflexão e a aprovação do
documento final. Em vez disso, Aparecida promoveu a participação das
Igrejas particulares como caminho de preparação que culminou em um
documento de síntese. Este documento, embora tenha sido ponto de
referência durante a V Conferência Geral, não foi assumido como
documento de partida. O trabalho inicial foi pôr em comum as
preocupações dos Pastores perante a mudança de época e a necessidade de
recuperar a vida de discípulo e missionário com que Cristo fundou a
Igreja.
2) Ambiente de oração com o Povo de Deus
É
importante lembrar o ambiente de oração gerado pela partilha diária da
Eucaristia e de outros momentos litúrgicos, tendo sido sempre
acompanhados pelo Povo de Deus. Além disso, realizando-se os trabalhos
na cripta do santuário, a “música de fundo” que os acompanhava era
constituída pelos cânticos e as orações dos fiéis.
3) Documento que se prolonga em compromisso, com a Missão Continental
Neste
contexto de oração e vivência de fé, surgiu o desejo de um novo
Pentecostes para a Igreja e o compromisso da Missão Continental.
Aparecida não termina com um documento, mas prolonga-se na Missão
Continental.
4) A presença de Nossa Senhora, Mãe da América
É a primeira Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe que se realiza em um Santuário mariano.
Dimensões da Missão Continental
A
Missão Continental está projetada em duas dimensões: programática e
paradigmática. A missão programática, como o próprio nome indica,
consiste na realização de atos de índole missionária. A missão
paradigmática, por sua vez, implica colocar em chave missionária a
atividade habitual das Igrejas particulares. Em consequência disso,
evidentemente, verifica-se toda uma dinâmica de reforma das estruturas
eclesiais. A “mudança de estruturas” (de caducas a novas) não é fruto de
um estudo de organização do organograma funcional eclesiástico, de que
resultaria uma reorganização estática, mas é consequência da dinâmica da
missão. O que derruba as estruturas caducas, o que leva a mudar os
corações dos cristãos é justamente a missionariedade. Daqui a
importância da missão paradigmática.
A Missão Continental, tanto
programática como paradigmática, exige gerar a consciência de uma Igreja
que se organiza para servir a todos os batizados e homens de boa
vontade. O discípulo de Cristo não é uma pessoa isolada em uma
espiritualidade intimista, mas uma pessoa em comunidade para se dar aos
outros. Portanto, a Missão Continental implica pertença eclesial.
Uma
posição como esta, que começa pelo discipulado missionário e implica
entender a identidade do cristão como pertença eclesial, pede que
explicitemos quais são os desafios vigentes da missionariedade
discipular. Me limito a assinalar dois: a renovação interna da Igreja e o
diálogo com o mundo atual.
Renovação interna da Igreja
Aparecida
propôs como necessária a Conversão Pastoral. Esta conversão implica
acreditar na Boa Nova, acreditar em Jesus Cristo portador do Reino de
Deus, em sua irrupção no mundo, em sua presença vitoriosa sobre o mal;
acreditar na assistência e guia do Espírito Santo; acreditar na Igreja,
Corpo de Cristo e prolongamento do dinamismo da Encarnação.
Neste
sentido, é necessário que nos interroguemos, como Pastores, sobre o
andamento das Igrejas a que presidimos. Estas perguntas servem de guia
para examinar o estado das dioceses quanto à adoção do espírito de
Aparecida, e são perguntas que é conveniente pôr-nos, muitas vezes, como
exame de consciência.
1. Procuramos que o nosso trabalho e o de
nossos presbíteros seja mais pastoral que administrativo? Quem é o
principal beneficiário do trabalho eclesial, a Igreja como organização
ou o Povo de Deus na sua totalidade?
2. Superamos a tentação de
tratar de forma reativa os problemas complexos que surgem? Criamos um
hábito proativo? Promovemos espaços e ocasiões para manifestar a
misericórdia de Deus? Estamos conscientes da responsabilidade de
repensar as atitudes pastorais e o funcionamento das estruturas
eclesiais, buscando o bem dos fiéis e da sociedade?
3. Na prática,
fazemos os fiéis leigos participantes da Missão? Oferecemos a Palavra
de Deus e os Sacramentos com consciência e convicção claras de que o
Espírito se manifesta neles?
4. Temos como critério habitual o
discernimento pastoral, servindo-nos dos Conselhos Diocesanos? Tanto
estes como os Conselhos paroquiais de Pastoral e de Assuntos Econômicos
são espaços reais para a participação laical na consulta, organização e
planejamento pastoral? O bom funcionamento dos Conselhos é determinante.
Acho que estamos muito atrasados nisso.
5. Nós, pastores bispos e
presbíteros, temos consciência e convicção da missão dos fiéis e lhes
damos a liberdade para irem discernindo, de acordo com o seu processo de
discípulos, a missão que o Senhor lhes confia? Apoiamo-los e
acompanhamos, superando qualquer tentação de manipulação ou indevida
submissão? Estamos sempre abertos para nos deixarmos interpelar pela
busca do bem da Igreja e da sua missão no mundo?
6. Os agentes de
pastoral e os fiéis em geral sentem-se parte da Igreja, identificam-se
com ela e aproximam-na dos batizados indiferentes e afastados?
Como
se pode ver, aqui estão em jogo atitudes. A Conversão Pastoral diz
respeito, principalmente, às atitudes e a uma reforma de vida. Uma
mudança de atitudes é necessariamente dinâmica: “entra em processo” e só
é possível moderá-lo acompanhando-o e discernindo-o. É importante ter
sempre presente que a bússola, para não se perder nesse caminho, é a
identidade católica concebida como pertença eclesial.
Diálogo com o mundo atual
Faz-nos
bem lembrar estas palavras do Concílio Vaticano II: As alegrias e as
esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo,
sobretudo dos pobres e atribulados, são também alegrias e esperanças,
tristezas e angústias dos discípulos de Cristo (cf. GS, 1). Aqui reside o
fundamento do diálogo com o mundo atual.
A resposta às questões
existenciais do homem de hoje, especialmente das novas gerações,
atendendo à sua linguagem, entranha uma mudança fecunda que devemos
realizar com a ajuda do Evangelho, do Magistério e da Doutrina Social da
Igreja. Os cenários e areópagos são os mais variados. Por exemplo, em
uma mesma cidade, existem vários imaginários coletivos que configuram
“diferentes cidades”. Se continuarmos apenas com os parâmetros da
“cultura de sempre”, fundamentalmente uma cultura de base rural, o
resultado acabará anulando a força do Espírito Santo. Deus está em toda a
parte: há que saber descobri-lo para poder anunciá-lo no idioma dessa
cultura; e cada realidade, cada idioma tem um ritmo diferente.
Algumas tentações contra o discipulado missionário
A
opção pela missionariedade do discípulo sofrerá tentações. É importante
saber por onde entra o espírito mau, para nos ajudar no discernimento.
Não se trata de sair à caça de demônios, mas simplesmente de lucidez e
prudência evangélicas. Limito-me a mencionar algumas atitudes que
configuram uma Igreja “tentada”. Trata-se de conhecer determinadas
propostas atuais que podem mimetizar-se em a dinâmica do discipulado
missionário e deter, até fazê-lo fracassar, o processo de Conversão
Pastoral.
1. A ideologização da mensagem evangélica. É uma
tentação que se verificou na Igreja desde o início: procurar uma
hermenêutica de interpretação evangélica fora da própria mensagem do
Evangelho e fora da Igreja. Um exemplo: a dado momento, Aparecida sofreu
essa tentação sob a forma de assepsia. Foi usado, e está bem, o método
de “ver, julgar, agir” (cf. n.º 19). A tentação se encontraria em optar
por um "ver" totalmente asséptico, um “ver” neutro, o que não é viável. O
ver está sempre condicionado pelo olhar. Não há uma hermenêutica
asséptica. Então a pergunta era: Com que olhar vamos ver a realidade?
Aparecida respondeu: Com o olhar de discípulo. Assim se entendem os
números 20 a 32. Existem outras maneiras de ideologização da mensagem e,
atualmente, aparecem na América Latina e no Caribe propostas desta
índole.
Menciono apenas algumas:
a) O reducionismo
socializante. É a ideologização mais fácil de descobrir. Em alguns
momentos, foi muito forte. Trata-se de uma pretensão interpretativa com
base em uma hermenêutica de acordo com as ciências sociais. Engloba os
campos mais variados, desde o liberalismo de mercado até à categorização
marxista.
b) A ideologização psicológica. Trata-se de uma
hermenêutica elitista que, em última análise, reduz o “encontro com
Jesus Cristo” e seu sucessivo desenvolvimento a uma dinâmica de
autoconhecimento. Costuma verificar-se principalmente em cursos de
espiritualidade, retiros espirituais, etc. Acaba por resultar numa
posição imanente auto-referencial. Não tem sabor de transcendência, nem
portanto de missionariedade.
c) A proposta gnóstica. Muito ligada à
tentação anterior. Costuma ocorrer em grupos de elites com uma proposta
de espiritualidade superior, bastante desencarnada, que acaba por
desembocar em posições pastorais de “quaestiones disputatae”. Foi o
primeiro desvio da comunidade primitiva e reaparece, ao longo da
história da Igreja, em edições corrigidas e renovadas. Vulgarmente são
denominados “católicos iluminados” (por serem atualmente herdeiros do
Iluminismo).
d) A proposta pelagiana. Aparece fundamentalmente sob
a forma de restauracionismo. Perante os males da Igreja, busca-se uma
solução apenas na disciplina, na restauração de condutas e formas
superadas que, mesmo culturalmente, não possuem capacidade
significativa. Na América Latina, costuma verificar-se em pequenos
grupos, em algumas novas Congregações Religiosas, em tendências para a
“segurança” doutrinal ou disciplinar. Fundamentalmente é estática,
embora possa prometer uma dinâmica para dentro: regride. Procura
“recuperar” o passado perdido.
2. O funcionalismo. A sua ação na
Igreja é paralisante. Mais do que com a rota, se entusiasma com o
“roteiro”. A concepção funcionalista não tolera o mistério, aposta na
eficácia. Reduz a realidade da Igreja à estrutura de uma ONG. O que vale
é o resultado palpável e as estatísticas. A partir disso, chega-se a
todas as modalidades empresariais de Igreja. Constitui uma espécie de
“teologia da prosperidade” no organograma da pastoral.
3. O
clericalismo é também uma tentação muito atual na América Latina.
Curiosamente, na maioria dos casos, trata-se de uma cumplicidade
viciosa: o sacerdote clericaliza e o leigo lhe pede por favor que o
clericalize, porque, no fundo, lhe resulta mais cômodo. O fenômeno do
clericalismo explica, em grande parte, a falta de maturidade adulta e de
liberdade cristã em boa parte do laicato da América Latina: ou não
cresce (a maioria), ou se abriga sob coberturas de ideologizações como
as indicadas, ou ainda em pertenças parciais e limitadas. Em nossas
terras, existe uma forma de liberdade laical através de experiências de
povo: o católico como povo. Aqui vê-se uma maior autonomia, geralmente
sadia, que se expressa fundamentalmente na piedade popular. O capítulo
de Aparecida sobre a piedade popular descreve, em profundidade, essa
dimensão. A proposta dos grupos bíblicos, das comunidades eclesiais de
base e dos Conselhos pastorais está na linha de superação do
clericalismo e de um crescimento da responsabilidade laical.
Poderíamos
continuar descrevendo outras tentações contra o discipulado
missionário, mas acho que estas são as mais importantes e com maior
força neste momento da América Latina e do Caribe.
Algumas orientações eclesiológicas
1.
O discipulado-missionário que Aparecida propôs às Igrejas da América
Latina e do Caribe é o caminho que Deus quer para “hoje”. Toda a
projeção utópica (para o futuro) ou restauracionista (para o passado)
não é do espírito bom. Deus é real e se manifesta no “hoje”. A sua
presença, no passado, se nos oferece como “memória” da saga de salvação
realizada quer em seu povo quer em cada um de nós; no futuro, se nos
oferece como “promessa” e esperança. No passado, Deus esteve lá e deixou
sua marca: a memória nos ajuda encontrá-lo; no futuro, é apenas
promessa... e não está nos mil e um “futuríveis”. O “hoje” é o que mais
se parece com a eternidade; mais ainda: o “hoje” é uma centelha de
eternidade. No “hoje”, se joga a vida eterna.
O discipulado
missionário é vocação: chamada e convite. Acontece em um “hoje”, mas “em
tensão”. Não existe o discipulado missionário estático. O discípulo
missionário não pode possuir-se a si mesmo; a sua imanência está em
tensão para a transcendência do discipulado e para a transcendência da
missão. Não admite a auto-referencialidade: ou refere-se a Jesus Cristo
ou refere-se às pessoas a quem deve levar o anúncio dele. Sujeito que se
transcende. Sujeito projetado para o encontro: o encontro com o Mestre
(que nos unge discípulos) e o encontro com os homens que esperam o
anúncio.
Por isso, gosto de dizer que a posição do discípulo
missionário não é uma posição de centro, mas de periferias: vive em
tensão para as periferias... incluindo as da eternidade no encontro com
Jesus Cristo. No anúncio evangélico, falar de “periferias existenciais”
descentraliza e, habitualmente, temos medo de sair do centro. O
discípulo-missionário é um descentrado: o centro é Jesus Cristo, que
convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais.
2.
A Igreja é instituição, mas, quando se erige em “centro”, se
funcionaliza e, pouco a pouco, se transforma em uma ONG. Então, a Igreja
pretende ter luz própria e deixa de ser aquele “mysterium lunae” de que
nos falavam os Santos Padres. Torna-se cada vez mais auto-referencial, e
se enfraquece a sua necessidade de ser missionária. De “Instituição” se
transforma em “Obra”. Deixa de ser Esposa, para acabar sendo
Administradora; de Servidora se transforma em “Controladora”. Aparecida
quer uma Igreja Esposa, Mãe, Servidora, facilitadora da fé e não
controladora da fé.
3. Em Aparecida, verificam-se de forma
relevante duas categorias pastorais, que surgem da própria originalidade
do Evangelho e nos podem também servir de orientação para avaliar o
modo como vivemos eclesialmente o discipulado missionário: a proximidade
e o encontro. Nenhuma das duas é nova, antes configuram a maneira como
Deus se revelou na história. É o “Deus próximo” do seu povo, proximidade
que chega ao máximo quando Ele encarna. É o Deus que sai ao encontro do
seu povo. Na América Latina e no Caribe, existem pastorais “distantes”,
pastorais disciplinares que privilegiam os princípios, as condutas, os
procedimentos organizacionais... obviamente sem proximidade, sem
ternura, nem carinho.
Ignora-se a "revolução da ternura", que provocou a
encarnação do Verbo. Há pastorais posicionadas com tal dose de
distância que são incapazes de conseguir o encontro: encontro com Jesus
Cristo, encontro com os irmãos. Este tipo de pastoral pode, no máximo,
prometer uma dimensão de proselitismo, mas nunca chegam a conseguir
inserção nem pertença eclesial. A proximidade cria comunhão e pertença,
dá lugar ao encontro. A proximidade toma forma de diálogo e cria uma
cultura do encontro. Uma pedra de toque para aferir a proximidade e a
capacidade de encontro de uma pastoral é a homilia. Como são as nossas
homilias? Estão próximas do exemplo de Nosso Senhor, que “falava como
quem tem autoridade”, ou são meramente prescritivas, distantes,
abstratas?
4. Quem guia a pastoral, a Missão Continental (seja
programática seja paradigmática), é o Bispo. Ele deve guiar, que não é o
mesmo que comandar. Além de assinalar as grandes figuras do episcopado
latino-americano que todos nós conhecemos, gostaria de acrescentar aqui
algumas linhas sobre o perfil do Bispo, que já disse aos Núncios na
reunião que tivemos em Roma. Os Bispos devem ser Pastores, próximos das
pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão: pacientes e
misericordiosos. Homens que amem a pobreza, quer a pobreza interior como
liberdade diante do Senhor, quer a pobreza exterior como simplicidade e
austeridade de vida. Homens que não tenham “psicologia de príncipes”.
Homens que não sejam ambiciosos e que sejam esposos de uma Igreja sem
viver na expectativa de outra.
Homens capazes de vigiar sobre o rebanho
que lhes foi confiado e cuidando de tudo aquilo que o mantém unido:
vigiar sobre o seu povo, atento a eventuais perigos que o ameacem, mas
sobretudo para cuidar da esperança: que haja sol e luz nos corações.
Homens capazes de sustentar com amor e paciência os passos de Deus em
seu povo. E o lugar onde o Bispo pode estar com o seu povo é triplo: ou à
frente para indicar o caminho, ou no meio para mantê-lo unido e
neutralizar as debandadas, ou então atrás para evitar que alguém se
desgarre mas também, e fundamentalmente, porque o próprio rebanho tem o
seu olfato para encontrar novos caminhos.
Não quero juntar mais
detalhes sobre a pessoa do Bispo, mas simplesmente acrescentar,
incluindo-me a mim mesmo nesta afirmação, que estamos um pouco atrasados
no que a Conversão Pastoral indica. Convém que nos ajudemos um pouco
mais a dar os passos que o Senhor quer que cumpramos neste “hoje” da
América Latina e do Caribe. E seria bom começar por aqui.
Agradeço-lhes
a paciência de me ouvirem. Desculpem a desordem do discurso e lhes
peço, por favor, para tomarmos a sério a nossa vocação de servidores do
povo santo e fiel de Deus, porque é nisso que se exerce e mostra a
autoridade: na capacidade de serviço. Muito obrigado!"